A República faz 100 anos

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Como é do conhecimento geral, faz no próximo dia 5 de Outubro 100 anos que o regime republicano foi implantado em Portugal. A efeméride é comemorada um pouco por todo o país, envolvendo municípios, agremiações, escolas…

Também o Agrupamento de Porto de Mós se associa às comemorações com uma actividade que a equipa da BECRE está a ultimar, a realizar no próximo dia 4 de Outubro.

Para já, deixamos aqui alguns materiais, para quem quiser ir abordando o assunto: sugestões de livros, endereços de páginas da internet relacionadas com o tema e algumas notícias de jornais da época, de Leiria e Lisboa.

 

SUGESTÕES DE LIVROS

Livros infanto-juvenis sobre a I República (1º e 2º CEB)
Livros infanto-juvenis sobre a I República (2º e 3º CEB)

LIGAÇÕES:

Recursos digitais sobre a I República para o 1º e 2º CEB – http://nonio.eses.pt/eb1/professores/aula_1.asp?periodo=1

Página da Comissão Nacional das Comemorações do Centenário da República – http://www.centenariorepublica.pt/

Secção das Escolas da página anterior – http://www.centenariorepublica.pt/lista-area/republica-escolas

Página da RTP sobre as Comemorações do Centenário da República – http://ww1.rtp.pt/wportal/sites/tv/centenariodarepublica/

Exposição «Letras e cores, ideias e autores da República» – http://www.iplb.pt/sites/DGLB/Portugues/noticiasEventos/Paginas/exposicaorepublica2010.aspx

NOTÍCIAS DA ÉPOCA

Notícia do «Leiria Ilustrada» (semanário republicano)

Notícias de «O Distrito de Leiria» (semanário monárquico)

Reportagens e fotos da Revolução Republicana na Revista «Ilustração Portuguesa»

Edição de 10 de Outubro de 1910
Edição de 17 de Outubro de 1910

Reportagem e fotos da Revolução Republicana na Revista «Ocidente»

Quando o rei desfilou sem roupa…

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Com a aproximação da data do Centenário da República, propomos algumas versões de um conhecido conto de Andersen (extraordinária metáfora sobre os defeitos da monarquia): «O rei vai nu» (popular) / «O fato novo do rei» (Ballesteros) / «O fato novo do sultão» (Guerra Junqueiro) / «O pajem não se cala» (António Torrado). Cada um deles é mais indicado para um determinado nível etário, do pré-escolar (o primeiro) ao 2º CEB (o último).

Começamos com a versão popular:

O rei vai nu

Era uma vez um rei muito vaidoso e que gostava de andar muito bem arranjado.
Um dia vieram ter com ele dois aldabrões que lhe falaram assim:
– Majestade, sabemos que gosta de andar sempre muito bem vestido – bem vestido como ninguém; e bem o mereceis! Descobrimos um tecido muito belo e de tal qualidade que os tolos não são capazes de o ver. Com um fato assim Vossa Majestade poderá distinguir as pessoas inteligentes dos tolos, parvos e estúpidos que não servirão para a vossa corte.
– Oh! Mas é uma descoberta espantosa! – respondeu o rei. Tragam já esse tecido e façam-me o fato; quero ver as qualidades das pessoas que tenho ao meu serviço.
Os dois aldrabões tiraram as medidas e, daí a umas semanas, apresentaram-se ao rei dizendo:
– Aqui está o fato de Vossa Majestade.
O rei não via nada, mas como não queria passar por parvo, respondeu:
– Oh! Como é belo!
Então os dois aldrabões fizeram de conta qua estavam a vestir o fato, com todos os gestos necessários e exclamações elogiosas:
– Ficais tâo elegante! Todos vos invejarão!
Como ninguém da corte queria passar por tolo, todos diziam que o fato era uma verdadeira maravilha. O rei até parecia um deus!
A notícia correu toda a cidade: o rei tinha um fato que só os inteligentes eram capazes de ver.
Um dia o rei resolveu sair para se mostrar ao povo. Toda a gente admirava a vestimenta, porque ninguém queria passar por estúpido, até que, a certa altura, uma criança, em toda a sua inocência, gritou:
– Olha, olha! O rei vai nu!
Gargalhada geral. Só então o rei compreendeu que fora enganado; envergonhado e arrependido da sua vaidade, correu a esconder-se no palácio.

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O Fato Novo do Rei
de Xosé Ballesteros; ilustração de João Caetano
Edição/reimpressão: 2003
Páginas: 40
Editor: Kalandraka
ISBN: 9789728781019

Há muitos anos, vivia um rei que passava o tempo a estrear trajes e fatos e assim gastava a fortuna do país, comprando os tecidos mais caros.
O rei não queria saber dos assuntos do governo e a única coisa que fazia era passear-se de carruagem pelo parque, ir ao teatro, passar em revista as tropas… sempre para exibir os seus trajes novos!
A qualquer hora mudava de casaca e, quando alguém perguntava por ele, recebia sempre a mesma resposta: O nosso imperador está no provador!

O fato novo do sultão
de Guerra Junqueiro
Publicado nos seus «Contos para a Infância», pode ser descarregado, na sua versão original em: http://www.gutenberg.org/files/16429/16429-0.txt

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O Pajem não se cala
António Torrado
Editora Civilização
ISBN  972-26-0802-9
EAN  9789722608022
32 páginas

Esta história, que António Torrado tornou nova a partir de um conto de Andresen, é divertidíssima e passa-se numa corte onde um pajem não se cala, um rei desespera e os fidalgos da corte riem à socapa.

Livro recomendado pelo PNL: 6º Ano de Escolaridade
Para Leitura Autónoma / com apoio do educador ou dos pais

Livros sobre a I República (2º e 3º CEB)

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7 x 1910
Histórias da República
de Margarida Fonseca Santos
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 38
Editor: Edições Gailivro
ISBN: 9789895577187
Colecção: Fora de Colecção

7x 1910 Histórias da República é um conjunto de sete histórias cujas personagens principais, falando na primeira pessoa, são objectos carregados de simbologia: O Mapa Cor-de-Rosa é acusado de estar na origem do célebre Ultimatum de 1890 , um antecedente que terá contribuído para o assassinato de D. Carlos I e mais, tarde, para a implantação da República. A Bala que estava dentro da pistola do Almirante Cândido dos Reis que se suicidara, pensando que a revolução tinha falhado. Acompanhado por um ordenança, o diplomata alemão preocupado com a vida dos estrangeiros que residiam no Avenida Palace pega na Bandeira Branca e segue rumo ao Marquês de Pombal, onde se encontravam muitos Republicanos. Estes ao verem-no chegar com a bandeira branca, pensaram que a Monarquia se tinha rendido. A Coroa Real que vive despeitada porque nunca mais foi posta numa cabeça de rei ou rainha desde o tempo de D.João IV. O Navio de Guerra que quando disparou sobre os edifícios do Ministério teve a certeza de que minou a confiança dos militares que defendiam a Monarquia. O Iate Real D. Amélia que levaria o rei deposto D. Manuel II e toda a família real até Gibraltar, onde ficariam a salvo.

 

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Era uma Vez a República
de José Fanha
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 88
Editor: Edições Gailivro
ISBN: 9789895577712
Colecção: Fora de Colecção

Já passaram 100 anos depois dessa data tão importante  para a nossa  História recente que é o 5  de Outubro  de 1910 em que terminou  a Monarquia e se deu a implantação da República. São muitas as perguntas  que colocamos quando se fala do  5 de Outubro de 1910. Será que saberemos  o que é uma República? Qual é a diferença entre a República e a Monarquia?  Quem   concebeu O Mapa Cor-de-Rosa? Como é que nasceu o Hino Nacional? Como é que  se escolheu a Nova bandeira portuguesa? Quem é que era eleito para o Parlamento? O que é a Maçonaria? E a Carbonária? Porque é que assassinaram o Rei D. Carlos?  Quem foi Afonso Costa? Porque é que chamavam o Presidente-rei  a Sidónio Pais?

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Mataram o Rei!
Ana Maria Magalhães; Isabel Alçada
Ilustrador(es): Arlindo Fagundes
Ilustrações: preto e branco
Acabamento: brochado
Dimensão: 13×18,5 cm
Páginas: 256
Peso: 173 g

Colecção: «Viagens no Tempo», n.º 12
Código: 25.012
ISBN: 978-972-21-0965-9
5.ª edição: Abril 2009

Orlando leva Ana e João na máquina do tempo em busca de um criminoso perigosíssimo que tem uma alcunha elucidativa — o Toupeira — e sabe camuflar-se tomando personalidades diferentes conforme o caso. Isso dificulta imenso a perseguição. Mas o grupo não desiste. Todas as pistas apontam para Lisboa no ano de 1908 e certos indícios fazem pensar que se relacionam com uma simpática família onde há três lindas raparigas. A melhor maneira de o caçar será fazerem amizade com elas. Para isso instalam-se na casa vizinha e passam a frequentar as festas, os passeios e até os bailes que o rei dá no Palácio da Pena, em Sintra. Mes sempre que julgam estar prestes a desmascará-lo, descobrem que afinal a pessoa de quem desconfiavam não é o Toupeira. As voltas e semivoltas levam João a envolver-se sem querer com um grupo de revolucionários que se preparam para assassinar o rei D. Carlos…

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Mataram o Rei ! … Viva a República
de José Ruy
Edição/reimpressão: 2008
Páginas: 48
Editor: Ancora Editora
ISBN: 9789727802036

Sinopse
Este livro tem como temática a implantação da República em Portugal.Uma parte da nossa história em banda desenhada contada por este autor já conhecido entre o público mais jovem e não só.

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1910 – Uma Antologia Literária
de Vários
6 contos inéditos de 6 grandes escritores.
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 128
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722041195
Colecção: Autores de Língua Portuguesa

Sinopse
No ano em que se celebra o Centenário da Implantação da República, as Publicações Dom Quixote reúnem num volume seis contos inéditos de seis grandes nomes da literatura portuguesa contemporânea: Luísa Costa Gomes, Luísa Costa Gomes, Mário de Carvalho, Miguel Real, Teolinda Gersão, Urbano Tavares Rodrigues.
Histórias ficcionadas em torno de um momento importante da história nacional que culminou com a Revolução de 5 de Outubro de 1910, e que marcou profundamente a sociedade, as instituições e a cultura portuguesa. O fim da monarquia constitucional e a evolução da democracia, com a tomada de diversas decisões importantes, como a expulsão das ordens religiosas e a abolição do ensino religioso nas escolas, a abolição dos títulos de nobreza, a aprovação do divórcio e a instituição do casamento civil, além da adopção de uma nova bandeira e hino nacional, que perduram até hoje.

 

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05 de Outubro de 1910 explicado aos jovens
de Carlos Rebelo
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 48
Editor: Plátano Editora
ISBN: 9789727707362

Sinopse
Às dificuldades económicas resultantes do atraso português e dos efeitos das crises internacionais, passa a juntar-se também a crise política. O rotativismo, que consistia na alternância no poder de dois partidos políticos, já não consegue dar resposta aos problemas nacionais. Em 1907, um governo chefiado por João Franco dissolve o Parlamento e passa a governar em ditadura. A contestação aumenta e, em 1908, dá-se o regicídio. A morte do rei D. Carlos conduz D. Manuel II ao poder, mas por pouco tempo. O novo rei procura acalmar as tensões mas não consegue evitar a queda do regime e, em 5 de Outubro de 1910, é proclamada a República

Livros sobre a I República (1º e 2º CEB)

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A Minha Primeira República
de José Jorge Letria; ilustração de Afonso Cruz
O princípio de 100 anos de História
Edição/reimpressão: 2009
Páginas: 64
Editor: Dom Quixote
ISBN: 9789722038591
Colecção: Moinho de Vento
Faixa etária: a partir dos 8 anos

No dia 5 de Outubro de 1910, Portugal deixou de ser uma monarquia para se transformar em república, uma das poucas então existentes na Europa e no resto do mundo. Neste livro, José Jorge Letria relata os acontecimentos ocorridos nesse dia e nos que se lhe seguiram. Foi um tempo de agitação, de esperança e de conflito, que mudou para sempre a História do nosso país. A personagem central desta narrativa é um rapaz de Lisboa, cujo pai esteve entre os civis e os militares que, na Rotunda, onde hoje se encontra a estátua do Marquês de Pombal, garantiram o triunfo dos revoltosos e do projecto republicano. As ilustrações de Afonso Cruz dão à narrativa o tempero e a força das imagens vivas e coloridas.

 

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Machado dos Santos – O Herói da Rotunda
de Afonso Cruz, José Jorge Letria
Edição/reimpressão: 2010
Páginas: 32
Editor: Texto Editores
ISBN: 9789724740584
Colecção: Figuras da hisória

Vem conhecer a história de António Maria Machado dos Santos, o homem que na madrugada do dia 4 de Outubro de 1910 chegou à Rotunda para liderar centenas de homens na defesa desta posição estratégica. Mantendo-se firme e irredutível, mesmo face a notícias contraditórias que davam a revolução como detida pelas forças do Rei, Machado dos Santos aguentou a posição e a sua atitude foi decisiva nos eventos que se desenrolaram, culminando com o anúncio da implantação da República, a 5 de Outubro de 1910. Cem anos depois, José Jorge Letria relata-nos a vida de Machado dos Santos, e Afonso Cruz ilustra, de forma exemplar, a vida deste herói esquecido.

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O dia em que mataram o Rei
de José Jorge Letria
Edição/reimpressão: 2007
Editor: Texto Editores
ISBN: 9789724734057
Idioma: Português

A 1 de Fevereiro de 1908, no regresso de mais uma estadia em Vila Viçosa, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe, são assassinados em pleno Terreiro do Paço.
Numa linguagem simples e adequada, explica-se aos mais pequenos este acontecimento e a sua importância na História de Portugal.

Notícia da Implantação da República no «Leiria Ilustrada»

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Viva a Republica Portuguêsa!
Acaba de ser proclamada a REPÚBLICA PORTUGUESA na capital com a adhesão de todo o paiz, á custa da heroicidade do povo e exercito reunidos para salvar a Patria do abysmo em que estava prestes a cahir.
Monarchicos e Republicanos luctaram com valor, juncando o solo de cadaveres.
A uns e outros, nossos irmãos pelo sangue, pelas crenças e pela Patria, o tributo do nosso respeito e admiração. Gloria e paz aos mortos, honra aos vencidos e VIVA A REPUBLICA PORTUGUÊSA.
Em Lisboa, toda a guarnição e armada adheriu á nova forma de Governo, e com as bandas militares á frente percorreram as ruas tocando o hymno republicano no meio do maior delirio.
A familia real está a bordo d’um navio de guerra e vae expiar longe da nossa Patria os erros d’um passado que precisamos esquecer, pela Moralidade, pela Verdade e pela Justiça.
Fundar-se-ha assim uma Republica para todos os portugueses, os quaes, para honra de todos, devem ser, de hoje em deante, mais do que amigos – irmãos.

POR LEIRIA

Ás 3 horas da manhã, um automovel conduzindo uma familia franceza, trazia a noticia de que a Republica fôra proclamada em Lisboa, e dava pormenores sobre os acontecimentos.
Ás seis horas da manhã, outro automovel, arvorando a bandeira verde e vermelha, conduzindo o cidadão Antonio Joaquim Leitão, de Vila Nova de Ourem, que trazia as primeiras noticias oficiaes sôbre o resultado da luta e os nomes que acima indicamos que constituem o governo provisorio da Republica Portuguesa.

Rapidamente se juntou ali grande quantidade de povo que arvorando bandeiras republicanas, e com o presidente da Comissão Distrital e das Comissões Municipal e Paroquial á frente, se dirigiram sucessivamente ao quartel general, governo civil e quartel de infantaria n.º 7, sendo recebidos com as maiores deferencias e declarando respeitarem o novo governo constituido, ficando á espera das respectivas comunicações oficiaes.
Nos Paços Municipaes, foi arvorada a bandeira republicana, e da varanda municipal foi proclamada a Republica pelo cidadão Gaudencio Pires de Campos no meio do maior entusiasmo, cantando o povo a Portuguêsa e a Marselhêsa.
Há o maior entuziasmo na cidade. Os operarios abandonaram o trabalho e juntaram-se aos manifestantes.
O comercio fechou as suas portas.
Acaba de chegar muito povo da Vieira, Marinha Grande, de outras povoações e a filarmonica dos Pouzos.
As Comissões Republicanas fôram esperar ao caminho o novo governador civil, Dr. José Eduardo Raposo de Magalhães que vem acompanhado de muito povo de Alcobaça.

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Leiria, 6 de Outubro de 1910
2.º Suplemento ao n.º 257 de “Leiria Ilustrada”
«Semanario Orgão do Partido Republicano»
Redator Principal e proprietario GAUDENCIO PIRES DE CAMPOS
Composto e impresso na Imp. Commercial, à Sé – LEIRIA

Notícia da Implantação da República n’«O Distrito de Leiria»

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Pela Pátria, pela República
Como consequência de um forte movimento revolucionário realizado em Lisboa pelo exército de terra e mar e pelo povo acaba de ser proclamada a República naquela cidade, com a adesão imediata de todas as outras localidades do país.
Liberais, como sempre demonstrámos ser, embora alheios a qualquer partido ou agrupamento político, e amando acima de tudo o bem-estar e a tranquilidade da nossa Pátria, estamos hoje no mesmo ponto em que nos colocámos ao tomar conta da direcção deste jornal. Pugnar pela Liberdade e pelas prosperidades morais e materiais do povo português – tal a norma que nos tem vindo orientando na apreciação dos homens e dos factos, e será a que seguiremos ainda. Congratulamo-nos, por conseguinte, com o advento da República, não só porque ela representa, sem a menor sombra de dúvida, uma conquista da vontade popular e um generoso ideal de todos os patriotas, como também porque esperamos que ela traga à nossa querida Nação os dias felizes e risonhos de que tanto ela carece, na sua atormentada existência.

Uma modificação, apenas, nos cumpre fazer na nossa divisa: até aqui, essa divisa era «Pela Pátria»; de hora avante será «Pela Pátria, pela República». É que os portugueses mostraram, pela sua conduta, neste momento histórico, que, no seu espírito, as ideias de Pátria e República estão de tal modo identificadas, que não pôde conceber-se a primeira abstraindo da segunda.
A noticia da implantação da República entre nós foi recebida com entusiasmo em todo o país, e não nos consta, até agora, que se levantasse o mais pequeno protesto, em qualquer povoação, o que prova que esta forma de governo era de há muito o ideal de uma grande maioria dos portugueses.
A República foi proclamada em Lisboa às 8 horas e meia da manhã do dia 5, sendo logo içada nos diferentes estabelecimentos públicos da capital a bandeira verde e encarnada.
Pelos jornais da capital, que aqui, como de resto em todo o país, foram vivamente disputados, já os nossos leitores conhecem os pormenores do movimento, que terminou pelo triunfo ganho pelos Republicanos. Desnecessário se torna, por isso, reproduzir aqui agora esses pormenores. O movimento, que rebentou a um sinal dado no Tejo por um tiro de canhão, foi iniciado por infantaria nº 16, a que em breve se juntou artilharia i, sendo ambas estas forças imediatamente auxiliadas por numerosos populares armados. Os outros corpos da guarnição e a Guarda Municipal tentaram dominar os revoltosos, no número dos quais devem contar-se as tripulações dos navios de guerra surtos no rio, com excepção do «D. Carlos»; mas após uma luta de 19 horas, em que de parte a parte se procurou cumprir o dever imposto a cada um dos grupos combatentes, os revoltosos tinham adquirido superioridade considerável sobre os seus adversários, que pouco a pouco foram aderindo à República.
Quanto ao Sr. D. Manuel, constou a principio que desaparecera com destino ignorado; soube-se, porém, mais tarde, que tinha embarcado com sua mãe na Ericeira, no yacht Amélia, no qual já se encontravam o Sr. D. Afonso e sua mãe, idos de Cascais no mesmo yacht.
E assim caiu a monarquia portuguesa, quase abandonada dos seus antigos amigos e apaniguados, que numa expressão do mais fundo egoísmo ou da mais irrefutável indiferença deixaram completamente só o representante de um regímen, de que tantos benefícios ilegais e tão injusta consideração receberam.
Damos, a seguir, a noticia das manifestações realizadas em Leiria por motivo do advento da República, a qual foi aqui saudada, como abaixo dizemos, com o maior entusiasmo.

A Proclamação
A notícia da proclamação da República em Lisboa foi trazida por uma família francesa, que aqui chegou em automóvel às 3 horas da madrugada de quinta-feira. Mais tarde, às 6 horas da manhã, chegou outro automóvel, em que vinha o Sr. António Joaquim Leitão, de Vila Nova de Ourém, que trazia pormenores do resultado da revolução, e a notícia da constituição do governo provisório da República Portuguesa.
Esta noticia propalou-se rapidamente, saindo logo para a rua os principais dirigentes do partido Republicano nesta cidade, com a bandeira Republicana, os quais, acompanhados de muitos populares, se dirigiram ao quartel general, governo civil e quartel de infantaria 7, dando calorosos vivas à República Portuguesa, à Liberdade, etc.
Os operários abandonaram o trabalho para acompanhar os manifestantes, e o comércio fechou às 9 horas da manhã.
Às 5 horas da tarde chegou a esta cidade o sr. José Eduardo Raposo de Magalhães, nomeado pelo governo provisório Governador Civil deste distrito, dirigindo-se logo ao edifício do governo civil e ali, visto já ter chegado o suplemento ao «Diário do Governo», que inseriu a proclamação da República e a nomeação do governo provisório, tomou posse do seu cargo, a qual lhe foi dada pelo sr. Conselheiro José Eduardo Simões Baião.
Ontem pelas 4 horas da tarde foi o Sr. Governador civil ao quartel do regimento de Infantaria 7 cumprimentar os Srs. Comandante e oficiais daquele regimento. Acompanhavam-no os dirigentes do partido Republicano nesta cidade, e muito povo. Terminada a visita, e depois de arvorada no edifício do quartel a bandeira Republicana, formou-se um imponente cortejo em que tomaram parte o comandante da brigada de infantaria, comandante e oficiais do regimento, com a respectiva banda, dirigindo-se todos ao edifício dos Paços do Concelho onde os esperava o Sr. Presidente da Câmara Dr. João António Correia Mateus com alguns Vereadores e empregados.
Assomando à varanda da sala dos Paços do Concelho, o Sr. Dr. João António Correia Mateus, proclamou dali com entusiasmo a República Portuguesa, sendo muito vitoriado pela grande massa de povo que estacionava no largo.
Discursou também o Sr. governador civil e o presidente da comissão municipal Gaudêncio Pires de Campos, sendo todos muito ovacionados.
Em seguida, o Sr. Dr. João António Correia Mateus, presidente da Câmara, abeirando se novamente da janela, declarou que a Câmara Municipal da sua presidência ia entregar o seu mandato a uma comissão municipal Republicana, que propunha ficasse composta doa cidadãos seguintes:
Efectivos: Inácio Veríssimo de Azevedo, de Leiria, Alípio Pedro de Mesquita, da Caranguejeira; António Vieira Repolho, José Jacinto da Assumpção e Adriano Rodrigues, de Leiria; Guilherme Pereira Roldão, da Marinha Grande, Luís José Ferreira, da Vieira; António Carreira de Azevedo Batalha e Avelino Fernandes, de Leiria.
Para substitutos foram propostos: João Miranda, José Carlos Afonso, Carlos Varela Lopes, José Simplício Virgolino, da Marinha Grande, Joaquim Diniz Guerra, da Vieira, José Pedrosa Guerra, do Coimbrão, Alfredo da Silva Nogueira, Manuel da Assumpção, José Martins da Cruz.
Esta proposta foi acolhida com uma prolongada salva de palmas.
Reunindo-se depois todos na sala dos Paços do concelho ali foi lavrado e assinado o termo da posse da referida Comissão Municipal e o da posse do novo administrador do concelho, o cidadão Gaudêncio Pires de Campos.
Ambos aqueles termos foram assinados por muitas das pessoas presentes.
Terminado este acto, organizou-se novamente o cortejo, que saindo dos Paços do Concelho se dirigiu ainda ao Governo Civil e ao quartel de infantaria 7, sempre acompanhado pela banda do regimento, que durante o trajecto tocou sempre a marcha Portuguesa.

O novo Governo
O governo provisório ficou assim constituído: Presidente, sem pasta, Dr. Teófilo Braga. Interior, Arq. António José de Almeida. Justiça, Dr. Afonso Costa. Fazenda, Basílio Telles. Estrangeiros, Dr. Bernardino Machado. Marinha, Azevedo Gomes. Guerra, coronel Correia Barreto. Obras Públicas, Dr. António Luís Gomes.

Porto de Mós
Acaba de ser nomeado administrador do concelho de Porto de Mós, o Sr. Candeias Duarte, estimado professor primário em Alqueidão da Serra.
Dizem-nos ser bem cabida esta nomeação, porquanto o Sr. Candeias Duarte goza de inúmeras simpatias.

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Sábado, 8 de Outubro de 1910
O Distrito de Leiria, nº 1489, Ano XXIX

Semanário Independente
Director e proprietário: Miguel da Costa Trindade