Notícia da Implantação da República n’«O Distrito de Leiria»

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Pela Pátria, pela República
Como consequência de um forte movimento revolucionário realizado em Lisboa pelo exército de terra e mar e pelo povo acaba de ser proclamada a República naquela cidade, com a adesão imediata de todas as outras localidades do país.
Liberais, como sempre demonstrámos ser, embora alheios a qualquer partido ou agrupamento político, e amando acima de tudo o bem-estar e a tranquilidade da nossa Pátria, estamos hoje no mesmo ponto em que nos colocámos ao tomar conta da direcção deste jornal. Pugnar pela Liberdade e pelas prosperidades morais e materiais do povo português – tal a norma que nos tem vindo orientando na apreciação dos homens e dos factos, e será a que seguiremos ainda. Congratulamo-nos, por conseguinte, com o advento da República, não só porque ela representa, sem a menor sombra de dúvida, uma conquista da vontade popular e um generoso ideal de todos os patriotas, como também porque esperamos que ela traga à nossa querida Nação os dias felizes e risonhos de que tanto ela carece, na sua atormentada existência.

Uma modificação, apenas, nos cumpre fazer na nossa divisa: até aqui, essa divisa era «Pela Pátria»; de hora avante será «Pela Pátria, pela República». É que os portugueses mostraram, pela sua conduta, neste momento histórico, que, no seu espírito, as ideias de Pátria e República estão de tal modo identificadas, que não pôde conceber-se a primeira abstraindo da segunda.
A noticia da implantação da República entre nós foi recebida com entusiasmo em todo o país, e não nos consta, até agora, que se levantasse o mais pequeno protesto, em qualquer povoação, o que prova que esta forma de governo era de há muito o ideal de uma grande maioria dos portugueses.
A República foi proclamada em Lisboa às 8 horas e meia da manhã do dia 5, sendo logo içada nos diferentes estabelecimentos públicos da capital a bandeira verde e encarnada.
Pelos jornais da capital, que aqui, como de resto em todo o país, foram vivamente disputados, já os nossos leitores conhecem os pormenores do movimento, que terminou pelo triunfo ganho pelos Republicanos. Desnecessário se torna, por isso, reproduzir aqui agora esses pormenores. O movimento, que rebentou a um sinal dado no Tejo por um tiro de canhão, foi iniciado por infantaria nº 16, a que em breve se juntou artilharia i, sendo ambas estas forças imediatamente auxiliadas por numerosos populares armados. Os outros corpos da guarnição e a Guarda Municipal tentaram dominar os revoltosos, no número dos quais devem contar-se as tripulações dos navios de guerra surtos no rio, com excepção do «D. Carlos»; mas após uma luta de 19 horas, em que de parte a parte se procurou cumprir o dever imposto a cada um dos grupos combatentes, os revoltosos tinham adquirido superioridade considerável sobre os seus adversários, que pouco a pouco foram aderindo à República.
Quanto ao Sr. D. Manuel, constou a principio que desaparecera com destino ignorado; soube-se, porém, mais tarde, que tinha embarcado com sua mãe na Ericeira, no yacht Amélia, no qual já se encontravam o Sr. D. Afonso e sua mãe, idos de Cascais no mesmo yacht.
E assim caiu a monarquia portuguesa, quase abandonada dos seus antigos amigos e apaniguados, que numa expressão do mais fundo egoísmo ou da mais irrefutável indiferença deixaram completamente só o representante de um regímen, de que tantos benefícios ilegais e tão injusta consideração receberam.
Damos, a seguir, a noticia das manifestações realizadas em Leiria por motivo do advento da República, a qual foi aqui saudada, como abaixo dizemos, com o maior entusiasmo.

A Proclamação
A notícia da proclamação da República em Lisboa foi trazida por uma família francesa, que aqui chegou em automóvel às 3 horas da madrugada de quinta-feira. Mais tarde, às 6 horas da manhã, chegou outro automóvel, em que vinha o Sr. António Joaquim Leitão, de Vila Nova de Ourém, que trazia pormenores do resultado da revolução, e a notícia da constituição do governo provisório da República Portuguesa.
Esta noticia propalou-se rapidamente, saindo logo para a rua os principais dirigentes do partido Republicano nesta cidade, com a bandeira Republicana, os quais, acompanhados de muitos populares, se dirigiram ao quartel general, governo civil e quartel de infantaria 7, dando calorosos vivas à República Portuguesa, à Liberdade, etc.
Os operários abandonaram o trabalho para acompanhar os manifestantes, e o comércio fechou às 9 horas da manhã.
Às 5 horas da tarde chegou a esta cidade o sr. José Eduardo Raposo de Magalhães, nomeado pelo governo provisório Governador Civil deste distrito, dirigindo-se logo ao edifício do governo civil e ali, visto já ter chegado o suplemento ao «Diário do Governo», que inseriu a proclamação da República e a nomeação do governo provisório, tomou posse do seu cargo, a qual lhe foi dada pelo sr. Conselheiro José Eduardo Simões Baião.
Ontem pelas 4 horas da tarde foi o Sr. Governador civil ao quartel do regimento de Infantaria 7 cumprimentar os Srs. Comandante e oficiais daquele regimento. Acompanhavam-no os dirigentes do partido Republicano nesta cidade, e muito povo. Terminada a visita, e depois de arvorada no edifício do quartel a bandeira Republicana, formou-se um imponente cortejo em que tomaram parte o comandante da brigada de infantaria, comandante e oficiais do regimento, com a respectiva banda, dirigindo-se todos ao edifício dos Paços do Concelho onde os esperava o Sr. Presidente da Câmara Dr. João António Correia Mateus com alguns Vereadores e empregados.
Assomando à varanda da sala dos Paços do Concelho, o Sr. Dr. João António Correia Mateus, proclamou dali com entusiasmo a República Portuguesa, sendo muito vitoriado pela grande massa de povo que estacionava no largo.
Discursou também o Sr. governador civil e o presidente da comissão municipal Gaudêncio Pires de Campos, sendo todos muito ovacionados.
Em seguida, o Sr. Dr. João António Correia Mateus, presidente da Câmara, abeirando se novamente da janela, declarou que a Câmara Municipal da sua presidência ia entregar o seu mandato a uma comissão municipal Republicana, que propunha ficasse composta doa cidadãos seguintes:
Efectivos: Inácio Veríssimo de Azevedo, de Leiria, Alípio Pedro de Mesquita, da Caranguejeira; António Vieira Repolho, José Jacinto da Assumpção e Adriano Rodrigues, de Leiria; Guilherme Pereira Roldão, da Marinha Grande, Luís José Ferreira, da Vieira; António Carreira de Azevedo Batalha e Avelino Fernandes, de Leiria.
Para substitutos foram propostos: João Miranda, José Carlos Afonso, Carlos Varela Lopes, José Simplício Virgolino, da Marinha Grande, Joaquim Diniz Guerra, da Vieira, José Pedrosa Guerra, do Coimbrão, Alfredo da Silva Nogueira, Manuel da Assumpção, José Martins da Cruz.
Esta proposta foi acolhida com uma prolongada salva de palmas.
Reunindo-se depois todos na sala dos Paços do concelho ali foi lavrado e assinado o termo da posse da referida Comissão Municipal e o da posse do novo administrador do concelho, o cidadão Gaudêncio Pires de Campos.
Ambos aqueles termos foram assinados por muitas das pessoas presentes.
Terminado este acto, organizou-se novamente o cortejo, que saindo dos Paços do Concelho se dirigiu ainda ao Governo Civil e ao quartel de infantaria 7, sempre acompanhado pela banda do regimento, que durante o trajecto tocou sempre a marcha Portuguesa.

O novo Governo
O governo provisório ficou assim constituído: Presidente, sem pasta, Dr. Teófilo Braga. Interior, Arq. António José de Almeida. Justiça, Dr. Afonso Costa. Fazenda, Basílio Telles. Estrangeiros, Dr. Bernardino Machado. Marinha, Azevedo Gomes. Guerra, coronel Correia Barreto. Obras Públicas, Dr. António Luís Gomes.

Porto de Mós
Acaba de ser nomeado administrador do concelho de Porto de Mós, o Sr. Candeias Duarte, estimado professor primário em Alqueidão da Serra.
Dizem-nos ser bem cabida esta nomeação, porquanto o Sr. Candeias Duarte goza de inúmeras simpatias.

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Sábado, 8 de Outubro de 1910
O Distrito de Leiria, nº 1489, Ano XXIX

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