A gralha-de-bico-vermelho

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A gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) pertence à ordem Passeriformes e à família Corvidae. Os corvídeos são um grupo de aves de grande sucesso, numeroso e diversificado, tendo algumas espécies aproveitado as oportunidades criadas pelo homem (aumento das áreas de cultivo e urbanas, diminuição das aves de rapina e outros predadores) para aumentarem as suas populações, podendo, por vezes, constituir verdadeiras pragas. Na Europa, a família Corvidae está representada por doze espécies encontrando-se oito em Portugal. Os corvídeos existentes em Portugal são o gaio, o corvo, a pega-azul, a pega-rabilonga, a gralha-preta, a gralha-de-nuca-cinzenta, a gralha-calva e a gralha-de-bico-vermelho.Dentro das espécies de corvídeos que naturalmente podemos encontrar em Portugal, a gralha-de-bico-vermelho distingue-se pelo seu bico vermelho, longo e curvo, característico das aves adultas (os juvenis apresentam o bico amarelo e mais curto). A plumagem é negra com reflexos azul-esverdeados e as patas vermelhas. No nosso país, a gralha-de-bico-vermelho mede cerca de 38 cm de comprimento no estado adulto.

 

Os seus locais de alimentação são, regra geral, áreas de estrato herbáceo rasteiro, quer sejam sistemas agrícolas extensivos ou prados seminaturais ocupados pelo gado. Alimentam-se no solo utilizando o bico, longo e curvo, para escavar, virar pedras e remexer no interior dos excrementos de gado, sendo a sua dieta relativamente especializada: escaravelhos, gafanhotos, formigas, aranhas, etc., ingerindo por vezes sementes e grãos. Embora se alimente em bando, as gralhas-de-bico-vermelho são geralmente reprodutores solitários, que acasalam para toda a vida.Durante a época de nidificação apenas os indivíduos não reprodutores utilizam os dormitórios comunitários. Os pares costumam nidificar por vezes a grande distância uns dos outros, utilizando para o efeito fendas, buracos e cavernas situadas em escarpas ou algares nas zonas cársicas; no entanto, quando não existem formações naturais, como as referidas, podem ocupar minas abandonadas, casas em ruínas, etc.A construção do ninho demora cerca de duas semanas, sendo o seu início na segunda quinzena de Março. A gralha-de-bico-vermelho põe entre três a cinco ovos, sendo o mais comum quatro, durando a incubação um pouco menos de três semanas. A partir de Abril, o macho inicia visitas, espaçadas de 20 a 60 minutos, ao ninho, para alimentar a fêmea ocupada com a incubação. No início de Maio ambos os elementos do casal podem ir para as áreas de alimentação regressando frequentemente ao ninho para prover as crias recém nascidas. As pequenas gralhas-de-bico-vermelho só começam a fazer as primeiras experiência de voo a partir do mês de Maio, acompanhando mais tarde os progenitores até às áreas de alimentação.

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A gralha-de-bico-vermelho está condicionada à existência de habitats adequados à sua alimentação e que permitam a sua nidificação. Na Europa, a sua distribuição está restringida a áreas costeiras e montanhosas.Entre 1986 e 1988, João Carlos Farinha estimou a população de gralhas-de-bico-vermelho, no nosso país, em cerca de 700 a 800 indivíduos; distribuídos por oito núcleos principais: Peneda-Gerês, Douro-Internacional, Serra da Estrela, Planalto de Idanha-a-Nova Costa Sudoeste e Serras d’Aire e Candeeiros. Presentemente não se encontram verdadeiras colónias em Portugal, sendo a sua distribuição frgmentada e restrita, embora já tenha sido abundante, nomeadamente, em todo o Maciço Calcário Estremenho. No Maciço Calcário Estremenho encontram-se colónias de gralhas-de-bico-vermelho ou referências às mesmas na Serra de Sicó e Alvaiázere, Serra de Montejunto e Serras d’Aire e Candeeiros. Nas serras de Sicó e Alvaiázere confirmou-se a sua presença há alguns anos atrás, quando essas aves utilizavam os algares para nidificarem, sendo actualmente inexistentes nessa zona. Na Serra de Montejunto ocorre ocasionalmente, tendo-se verificado a sua nidificação em algares até há pouco tempo. As serras d’Aire e Candeeiros são um dos núcleos principais de nidificação da Gralha-de-bico-vermelho em Portugal, apesar de também aí esta espécie ter vindo a sofrer um acentuado declínio nos últimos anos. A sua nidificação ocorre predominantemente em algares, onde essas aves desfrutam de um microclima favorável à sua reprodução e encontram protecção contra todo o tipo de “predadores”, excepto o homem. Os algares funcionam como incubadoras naturais onde a temperatura e a humidade relativa se poderão considerar constantes, em torno de valores óptimos. A testemunhar a importância da gralha-de-bico-vermelho nas serras d’Aire e Candeeiros e a sua relação com os algares temos uma série de cavidades naturais desse tipo com nomes indubitavelmente ligados a essas aves: Algar das Gralhas 1, Algar da Gralhas 3, Algar das Gralhas, etc.

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